Quando estava em busca da gravidez, sempre buscava histórias de sucesso para poder me animar e me dar esperanças de que eu também conseguiria ser mãe. Atualmente no meu consultório, me deparo diariamente com mulheres que estão naquele momento de fragilidade que um dia me encontrei e quero dizer que é preciso ser guerreira, é preciso ter força, é preciso ter fé. Durante muito tempo chorei, duvidei de mim mesma, me senti insegura no meu casamento e posso dizer que tudo pelo que passei só me fez uma mulher muito mais forte, me fez mãe.

Depois de passar por tudo que passei, tomei a decisão de ajudar as mulheres e casais que estão tendo dificuldade em engravidar, o conhecimento que adquiri e a experiência pela qual passei serviram como um chamado, e posso te garantir que não tem nada mais gratificante do que ver aquela mulher que um dia entrou no meu consultório fragilizada e abriu seu coração mostrando toda as suas angústias, um dia trazer o brilho nos olhos e o filho no colo para nos conhecer.

A primeira sensação que temos quando descobrimos que engravidar pode não ser tão fácil quanto a sociedade nos faz acreditar e de que precisamos esconder esta informação e lutarmos sozinhas, temos medo de sermos julgadas, de sofrermos um preconceito velado sobre nossa feminilidade, pressões que nos fazem encolher e viver em uma redoma de pensamentos infelizes. Então o intuito deste texto é de reverter isso, somos muitas e estamos unidas, quem já passou por este caminho pode ter certeza estará sempre com a mão estendida para ajudar quem está dando seus primeiros passos.

Estou aqui estendendo a minha mão e abrirei meu coração com a minha história que espero possa trazer luz a quem esteja buscando, convido a todos a me seguirem e conhecer a minha história.

O Desejo de ser mãe

Gostaria de compartilhar um pouco da minha história, como descobri a endometriose e como fui afetada por essa doença, que hoje atinge milhões de mulheres, até realizar o meu sonho de ser mãe.

Conheci meu marido e namoramos por 7 anos e durante este período, o pensamento de ter filhos era apenas em tom de brincadeira, pois nos conhecemos durante a faculdade e por vários anos não tínhamos condições nem mesmo de nos sustentarmos, quem diria termos a coragem de ter um filho. Durante estes anos de namoro sempre me dediquei a estudar a saúde da mulher, fisioterapeuta de formação, iniciei minha pós graduação em acupuntura, auriculoterapia e em paralelo também fazia cursos sobre fortalecimento da musculatura pélvica, foram anos de dedicação, viagens e muito estudo. Infelizmente devido a situação econômica do país, meu marido e eu decidimos que se um dia nós quiséssemos ter um filho, nós teríamos que arriscar e tentar a vida fora do país.

Meu marido foi a Itália conseguir a cidadania italiana e com ela pudermos entrar na Inglaterra aonde moramos por maravilhosos 8 anos. No início, com dificuldades, mas aos poucos fui voltando a minha área de trabalho relacionada a saúde, entre outros trabalhos, por um longo período trabalhei como assistente pessoal da Baronesa Jane Campbell de Surbiton, passava os dias inteiros com ela, que sofre de uma grave doença degenerativa. A Baronesa sempre foi muito inspiradora, mesmo nas suas enormes dificuldades, me ensinou muito sobre a história e tradições da Inglaterra, mas principalmente sobre luta e sobre vida, sempre serei grata por tantos ensinamentos.

Meu marido e eu recomeçamos nossa vida na Inglaterra, e portanto até conseguirmos a estabilidade financeira, foram muitos anos. Portanto a conversa sobre filhos também era sempre adiada. Por muitos anos até mesmo nos questionávamos se realmente teríamos um filho. Aproveitamos para viajar bastante e curtir a nossa vida de casados até que um dia, depois de uma sequência de acontecimentos que irei explicar mais a frente, nos foi informado que teríamos não mais do que 5% de chances de engravidar naturalmente. Neste momento, em que me foi tirado o direito de escolha, posso dizer que a vontade de ser mãe começou a me consumir por dentro. A partir deste dia minha vida mudou por completo.

Diagnóstico da Endometriose

Desde muito nova tive problemas para me adaptar com o anticoncepcional, muitas pílulas não conseguiam segurar minha menstruação e sofria muito com efeitos colaterais como cefaleia hormonal. Após diversas tentativas finalmente encontrei o Yasmin, anticoncepcional que me adaptei. Quando casei, nos mudamos para Londres e lá o médico não quis mais me receitar o Yasmin e tive que trocar de pílula novamente.

Tentei várias e não consegui me adaptar a nenhum outro anticoncepcional. Estive de férias no Brasil e fiz uma consulta com meu ginecologista e ele sugeriu colocar o DIU de cobre. Em poucos meses comecei a sentir dores e o fluxo menstrual aumentou muito. Liguei para meu ginecologista que disse que poderia ser devido ao DIU e pediu para retirar. Mas mesmo após a retirada, as dores e o fluxo intenso continuaram. Em um episódio, tive dores tão intensas que fui parar no pronto-socorro e queriam me operar, pois achavam que tinha apendicite ou infecção intestinal. Tive que assinar um termo de responsabilidade para deixar o hospital, pois fiquei vários dias internada e não conseguiam chegar a nenhum diagnóstico.

Fiquei com sangramento contínuo durante dois meses e acabei tendo anemia. Fiz vários exames até que encontraram um mioma na parte interna do útero e endometriomas que indicavam endometriose. Os médicos me informaram que não era necessário nenhum procedimento, já que muitas mulheres engravidam com endometriose e com miomas. Ou seja, não sei estimar com precisão quantos anos precisei sofrer até ter um diagnóstico de endometriose, mas o diagnóstico foi só o início da minha luta pela gravidez, pois somente a partir deste momento que fui me informando das dificuldades que iria enfrentar.

Cirurgias em busca da gravidez

Após ter sido informada na Inglaterra que poderia estar com endometriose mas que não seria feita nenhuma outra investigação para confirmar o diagnóstico, conversei com um amigo médico ginecologista no Brasil e ele disse que deveria fazer com urgência uma vídeolaparoscopia para obter a confirmação.

Voltei ao Brasil e fiz o procedimento com ele que por sorte é especialista em endometriose e fertilidade. Foi confirmado o diagnóstico de endometriose severa grau IV. Os focos de endometriose estavam na bexiga. Fui submetida também a uma cirurgia para a retirada de um mioma que também poderia diminuir as chances de engravidar, e, como me foi informado, por ter origem hormonal, durante uma eventual gestação, ele poderia crescer junto com a criança e ao dividir espaço com ela, poderia causar um aborto natural. Os médicos na Inglaterra se negavam a fazer estes procedimentos, o que me frustrava muito e me deixava com o sentimento de estar sozinha lutando contra eles.

Infelizmente o procedimento para a retirada do mioma não pode ser completado e ficou cerca de 15% do mioma que deveria ser retirado em uma nova cirurgia, mas como tive que retornar, tinha que convencer algum médico na Inglaterra para fazer. Ao informar os médicos ingleses, ninguém queria fazer o procedimento e ainda me julgavam como irresponsável. Precisei encontrar um médico particular caríssimo que aceitou terminar a cirurgia para a retirada do mioma, mas não perdia a oportunidade de criticar as técnicas usadas aqui no Brasil.

Este mesmo médico disse que se quiséssemos fazer qualquer tratamento de fertilidade, ele teria que fazer uma nova videolaparoscopia. Como a cirurgia feita no Brasil tinha sido muito recente e nós tínhamos toda a cirurgia gravada em DVD, perguntávamos da sua necessidade, mas ele disse que ele teria que verificar se as trompas não tinham sido danificadas pelo procedimento feito no Brasil.

A lição que aprendi foi que na Inglaterra nós temos os melhores hospitais e equipamentos, mas isso de nada serve sem o lado humano que os profissionais do Brasil oferecem. Nunca me arrependi te enfrentar os médicos de lá baseado no que os meus médicos aqui me informavam. Sempre fui muito melhor assistida aqui do que lá.

Conflito de tratamentos

Continuando meu relato, preciso ressaltar que não foram somente a dificuldade em conseguir fazer as cirurgias na Inglaterra que me acompanharam pelo processo. Após fazer minha primeira videolaparoscopia para retirada de lesões e aderências, meu médico me receitou tomar injeções de Zoladex por 6 meses, como precisava voltar para a Inglaterra, estava preocupada com a entrada com este medicamento no país. Entrei em contato com meu médico na Inglaterra explicando a situação e perguntando sobre a possibilidade dele receitar a medicação por lá, ele muito solícito, disse que não teria problema e que assim que chegássemos lá poderíamos procurar por ele. Meu médico brasileiro escreveu uma carta explicando o procedimento e o tratamento que estava fazendo para que fosse entregue ao profissional inglês.

Ainda no Brasil, nosso médico disse que o tratamento com Zoladex por 6 meses seria necessário para dar um descanso para o corpo e que assim que as menstruações retornassem, nós teríamos as melhores condições para engravidar novamente, tendo então uma nova janela de uns 6 meses com melhores chances de engravidar naturalmente, mas o tratamento com o Zoladex deveria ser iniciado imediatamente.

Não é preciso dizer que o médico inglês se negou a me receitar o Zoladex. Iniciou ali uma jornada em busca de algum profissional que estivesse disposto novamente a dar continuidade ao tratamento que estava fazendo. Após cerca de 4 meses de tentativas encontrei uma médica ginecologista da Força Aérea Real Britânica que concordou completamente com o tratamento e me receitou e me aplicava as injeções. Apesar de estar muito feliz por enfim estar fazendo o tratamento como gostaria, estava com muito medo que a medicação tivesse chegado tarde demais.

Mal sabia eu que esta medicação tinha chegado no momento exato, a sorte estava mudando de lado e a perseverança estava vencendo.

Início do tratamento da FIV

O médico que havia feito minha última cirurgia de videolaparoscopia por causa da endometriose, havia me colocado na lista de espera para um tratamento de fertilização in vitro pelo sistema público de saúde inglês. A média para fazer o tratamento era de 2 anos após dar entrada na lista.

Quando estávamos na quarta dose do Zoladex, remédio que havia sido receitado pelo meu médico brasileiro, fui chamada ao hospital para sermos confirmados na lista de espera. O médico que nos recebeu queria saber nosso histórico e ao saber que estávamos fazendo tratamento com o Zoladex, ficou muito nervoso e disse que este era a primeira fase do tratamento de FIV e que por ser uma medicação tão forte não seria recomendado fazer este tratamento novamente e por esta razão nós não iriamos entrar na fila de espera, mas estaríamos a partir daquele momento dentro do programa da FIV.

Nós não podíamos acreditar no que estávamos ouvindo, pois se nós tivéssemos iniciado o tratamento com o Zoladex logo após a videolaparoscopia como era programado, neste momento a medicação já teria terminado e precisaríamos esperar no mínimo os 2 anos na lista.

Meu marido e eu não conseguíamos conter a felicidade e chorávamos abraçados esperando o ônibus que nos levaria para casa, apesar de todas as incertezas, o sentimento era de que estávamos mais próximos do que nunca.

 

Avalanche de sentimentos

Após iniciar o tratamento da FIV, a ficha começa a cair e depois de toda turbulência para descobrir a endometriose, cirurgias, decepção de não conseguir engravidar naturalmente, medos e incertezas, iniciava o período de maior esperança em ser mãe.

Quando digo para minhas pacientes queridas que entendo exatamente o que estão passando e sentindo, falo com a sinceridade de quem passou por todos os processos e sei exatamente como é difícil e doloroso em todos os aspectos, tanto físico como emocional, vêm aquela avalanche de pensamentos e emoções, positivas e negativas e que por mais que você tente e queira, não consegue ter controle.

Eu como estava morando longe, em outro país, optei por contar somente para nossas famílias. Mas entendo plenamente o por que muitos casais optam por não contar para ninguém e manter em sigilo. Já passamos por muito estresse e pressão, e querendo ou não, mesmo sem querer as pessoas que ficam sabendo acabam fazendo uma certa pressão adicional.

Agora pensando em tudo o que aconteceu, foi um momento bem especial em nossas vidas, eu e meu marido acabamos nos aproximando mais ainda, até me emociono ao pensar, sempre companheiro, me dando forças, sempre positivo. Com certeza se ele não estivesse ao meu lado, não sei se conseguiria passar por tudo.

Nossas famílias também nos apoiaram muito, rezando e enviando energias positivas. Eu e meu marido fizemos um acordo, de que iríamos tentar mentalizar nosso bebê vindo, pensamentos positivos ao máximo e que por mais que não desse certo o tratamento de FIV e o “tombo” fosse grande, pelo menos teríamos vivido este momento em toda sua intensidade. Mudamos nossa alimentação, tentamos nos exercitar mais, lemos muito a respeito do tratamento e foi aí que me deparei com a acupuntura específica para fertilidade, que por sorte ou destino da vida, a Inglaterra é considerada um centro de pesquisa e excelência com profissionais do mais alto nível e reconhecimento internacional.

Fiz acupuntura durante todo meu tratamento de FIV. Havia encontrado ali uma paixão.

O procedimento de FIV na Inglaterra

Na Inglaterra, todo cronograma é explicado detalhadamente, recebemos em casa pelo correio uma caixa com toda a medicação e com folhetos explicativos e dias e horários a serem seguidos. Estava bem apreensiva de usar toda essa medicação, pois se você começa a pesquisar na internet e começa a ler tudo o que vê pela frente parece que vai enlouquecer…

Enfim, tudo ocorreu tranquilamente e tive poucos efeitos colaterais das medicações. Chegou o dia da coleta dos óvulos, fui internada no Kingston Hospital, tudo muito eficiente e rápido. Quando acordei fiquei esperando meu marido que havia saído para levar os meus óvulos. Isso foi um fato muito curioso, eles pedem aos maridos para levar os materiais coletados em uma incubadora portátil até o laboratório em Londres onde se encontram os embriologistas, somente neste momento é informado quantos óvulos foram coletados e então meu marido fez a coleta dos seus espermatozoides.

Nós éramos informados da evolução dos embriões por telefone, e nunca vou esquecer quando me informaram que alguns embriões não superaram a noite, o que para muitos pode parecer um grupo de algumas células, naquele momento era meu filho que não havia sobrevivido à noite.

Esta é mais uma fase de estresse e ansiedade, primeiro para saber quantos óvulos foram coletados, quantos foram fecundados, quantos estão evoluindo…meu Deus, não tem o que fazer, somente rezar muito e mentalizar positivamente. Lembro-me com muita emoção das palavras do embriologista, meu coração parecia que iria explodir quando recebi a ligação, ele disse: Congratulations, you have five extremely fantastic embryos! (Parabéns, vocês tem cinco embriões extremamente fantásticos). Nunca vou esquecer daquele momento, aquelas palavras vieram com uma felicidade tão intensa, alívio e muito amor, juro que naquele momento senti que meu bebê estava chegando.

 O dia da transferência dos meus embriões

O dia da transferência havia chegado, o embriologista me disse que os embriões estavam lindos, fortes e que ele não sabia nem qual escolher, eles haviam evoluído por 5 dias e chegaram a blastocistos.

Fiz a minha sessão de acupuntura antes da transferência e passei em casa antes de irmos para a clínica, ao sair de casa, meu marido ainda falou: “Estamos saindo de casa somente nós dois e voltaremos em três, vamos trazer nosso filho para casa.”

Durante todo o tratamento sempre fomos informados que somente poderíamos transferir um embrião. As razões seriam de que os riscos de uma gravidez de gêmeos era muito grande, que a probabilidade de prematuros seria maior e com isso aumentaria a despesa pública com o tratamento. Por estarmos fazendo pelo sistema público, não teríamos escolha.

Estava relativamente tranquila, pontualmente nos chamaram numa sala e o médico perguntou se gostaríamos de transferir um ou dois embriões, levamos um baita susto. O médico avisou que a chance de termos gêmeos seria alta devido a qualidade dos embriões. Pensamos rapidamente e decidimos colocar somente um, por mais que a tentação fosse grande, pois eu sabia que tinha colo uterino curto e fraco, portanto teria que fazer cerclagem depois e que seria muito arriscado com gêmeos.

Tudo certo, transferência feita, pensei agora vou repousar aqui um pouco antes de retornar para casa…quem disse…de repente a enfermeira falou que eu poderia me levantar e ir embora, entrei em desespero…eu disse que precisava esvaziar minha bexiga e ela disse, sim claro, pode ir ao banheiro. Ou seja, parece que o repouso depois da transferência é por prevenção mesmo, pois no meu caso fui logo em seguida ao banheiro, andei, peguei ônibus e trem para retornar para casa e ainda fui fazer minha sessão de acupuntura depois da transferência.

Começavam agora as semanas de espera pelo resultado.

A espera pelo resultado de gravidez

Após a transferência dos meus embriões, iniciou-se o período de espera. A minha experiência como devem imaginar foi de que os dias não passavam, pareciam uma eternidade. Fiz mais duas sessões de acupuntura até chegar finalmente o dia do teste de gravidez. Na Inglaterra, após a transferência, recebemos apenas um teste de farmácia.

Fiz o primeiro teste, não dormi no dia anterior de tanta ansiedade, pedi para meu marido ver o resultado e me dizer, eu não tinha coragem, apareceu uma cruz bem fraca, nos perguntávamos se poderia ser positivo, estava muito fraca mas dava para ver que era positivo, muita emoção, felicidade, vontade de contar para todo mundo. Choramos muito.

Após tanta luta, aquela fraca cruz azul representava uma felicidade imensurável, ligamos somente para nossas famílias. Agora seria um passo de cada vez, conseguimos engravidar e agora esperar os três primeiros meses para ter certeza que estaria tudo bem com o bebê até poder contar para todo mundo a novidade.

Quero agradecer a quem leu esta história, a minha luta em busca deste sonho, e quero novamente reiterar que apesar de que cada mulher tenha uma experiência diferente, compartilhamos a luta, nós nos entendemos como ninguém. Que este relato sirva para dar força para continuar para quem estiver cansado, pois o caminho é difícil e muitas vezes doloroso, mas toda mulher merece ser mãe.